TgAA Parte 2: Aplicações clínicas e interferências analíticas

No post anterior vimos a presença de autoanticorpos antitireoideanos (em especial o TgAA) no soro é um forte indicativo de tireoidite linfocítica imunomediada, processo inflamatório responsável por mais da metade dos casos de hipotireoidismo canino.
A dosagem do TgAA sérico por si só não nos diz nada a respeito da função da tireoide, mas sim indica a presença de processo inflamatório na glândula. A evidência desta patologia na função tireoidiana não ocorre até que ela tenha destruído cerca de 50-60% da tireóide. Portanto, a dosagem de TgAA (Veja na tabela abaixo) é considerada a ferramenta ideal para o diagnóstico precoce da tireoidite linfocítica podendo ser identificada quando doença ainda não é clinicamente detectável e a função tireoideana não está comprometida (ou seja, quando as concentrações séricas de T4 e TSH ainda se encontram dentro dos valores normais).
Dosagem de TgAA
Metodologia:
Enzimaimunoensaio (EIE)
Material:
Amostra sérica (soro)
Preparo do Paciente:
Jejum alimentar de 6 a 8 horas evitando-se a formação de lipemia ou hemólise
Contraindicações no uso:
Exame NÃO recomendado para pacientes sob terapia imunossupressora por tempo prolongado
Cuidados com armazenamento para envio:
Refrigerada por até 72 horas ou congelada por até 30 dias
Segundo o Prof. Peter Graham da Universidade de Nottingham (que foi convidado do nosso 1° Workshop Internacional, realizado em 2020), estima-se que de todos os cães com hipoteroidismo, 50% serão positivos para TgAA e, dentre estes, uma proporção considerável apresentará também anticorpos contra fragmentos presentes em T3 e T4, (conhecidos como T3AA e T4AA). A presença destes anticorpos no soro é de extrema importância do ponto de vista analítico, pois promove reações cruzadas durante a dosagem direta de T3 e T4, alterando o resultado do exames. Apesar do fato de que na maior parte dos casos esta reação cruzada ocorre com o T3 (fração pouco avaliada rotineiramente na veterinária), estudos recentes mostram que as análises de T4 total e livre também podem sofrer interferência destes anticorpos em 10-15% dos casos gerando resultados falsamente elevados e mascarando a presença da doença
Assim, se há suspeita de inconsistência nos resultados de T4, recomenda-se a titulação T4AA. Em caso de positividade para o anticorpo, recomenda-se fazer o ensaio de T4 livre por diálise de equilíbrio (FT4d). A FT4d fornecerá uma medição precisa dos níveis de T4 pois, ao contrário da dosagem direta, esta metodologia não sofre interferência dos autoanticorpos. Isso ocorre, pois, nesta metodologia há filtragem prévia dos anticorpos através de membrana de diálise. Assim, para os cães T4AA positivo, a dosagem de FT4d torna-se a única alternativa para monitorar a suplementação de T4.
O FT4d também é útil nos casos em que o T4 livre total ou padrão é limítrofe baixo e o TSH é normal para auxiliar na diferenciação de cães eutireoidianos, mas doentes, daqueles 20-25% dos cães hipotireoidianos que poderiam ter um resultado de TSH normal.
Texto elaborado por:

Dra. Gabriela Siqueira Martins
Veterinária, Corpo Editorial e Gestão de Projetos da empresa Pesquisas Hormonais e do Movimento Hormone Lovers

Dra. Priscila Viau Furtado
Veterinária, CEO fundadora da empresa Pesquisas Hormonais e do Movimento Hormone Lovers
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